O contínuo bombardeio de Gaza e a escalada da agressão na Cisjordânia

Nove meses após o anúncio do cessar-fogo, endossado pelo Conselho de Segurança da ONU, os disparos ainda ressoam em Gaza, e a promessa feita ao povo palestino não foi cumprida.

O bombardeio continua. Em meados de julho, ataques aéreos sionistas mataram doze pessoas em dois dias, incluindo mulheres e crianças, além de seis policiais atingidos em uma delegacia no campo de refugiados de Jabaliya. Dias depois, um ataque aéreo a uma casa no bairro de Sabra, na Cidade de Gaza, matou um pai, uma mãe e seus quatro filhos, cuja casa foi incendiada ao redor deles. No início do mês, um ataque atingiu uma barraca que abrigava famílias deslocadas em al-Mawasi, matando várias pessoas, incluindo uma criança de dez anos. Desde que o chamado cessar-fogo entrou em vigor, o Ministério da Saúde de Gaza registrou mais de mil mortos. Trata-se de um cessar-fogo apenas formal. Na prática, as mortes continuam.

A população de Gaza foi abandonada à fome. A ajuda humanitária prometida junto com o cessar-fogo nunca se concretizou na escala necessária. Agências de ajuda humanitária alertam agora que até dois terços da população de Gaza podem enfrentar fome aguda novamente até o final deste ano, à medida que o financiamento para as operações de socorro é cortado. As famílias continuam deslocadas, vivendo entre as ruínas de suas casas, sem água potável nem saneamento básico confiável. Com a maior parte da população desempregada, as pessoas não conseguem alimentar seus filhos, muito menos reconstruir suas vidas. Um cessar-fogo que deixa uma população à beira da fome não traz a paz. É apenas a continuação do cerco por outros meios.

Ao mesmo tempo, a Cisjordânia está em chamas, como vem acontecendo há anos. A agressão dos colonos contra as comunidades palestinas não é algo apenas recente. Ela tem se intensificado ano após ano: 1.291 ataques de colonos registrados em 2023, subindo para 1.449 em 2024 e 1.835 em 2025. A média subiu para cerca de 190 ataques por mês somente em 2026. Aldeias palestinas em toda a Cisjordânia têm vivido sob a realidade diária de incursões, apreensões de terras e violência perpetrada por colonos armados. Esse é um padrão que grupos de direitos humanos vêm documentando há anos, com os agressores frequentemente apoiados pelo exército sionista e raramente levados à justiça.

A resistência defensiva dos palestinos contra essas incursões em suas próprias terras tem sido recebida com represálias em massa. Nos últimos dias, colonos lançaram uma onda de ataques em cidades e aldeias palestinas, incendiando mesquitas, colocando fogo em casas e veículos e pixando ameaças de vingança nas paredes das casas palestinas. Este é o capítulo mais recente de anos de violência por parte dos colonos. Quando enfrentada por comunidades que defendem suas próprias terras, ela é frequentemente seguida por punições coletivas. A violência dos colonos é hoje a principal causa de ferimentos entre os palestinos no território ocupado, praticada com total impunidade.

Essa agressão não é espontânea. Ela é patrocinada. Nos últimos dias, altos membros do governo israelense exigiram publicamente a destruição de aldeias palestinas. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, pediu que uma aldeia palestina fosse arrasada, assim como Beit Hanoun, em Gaza, foi arrasada. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, que também supervisiona a política de assentamentos, pediu que aldeias palestinas fossem arrasadas como os campos de refugiados de Nablus e Tulkarem foram durante uma operação militar de 2025. Essa operação militar foi considerada pela Human Rights Watch como constituindo crimes de guerra e limpeza étnica.

Essas não são vozes marginais: elas fazem parte da coalizão governamental. Sob sua supervisão, a expansão dos assentamentos atingiu níveis recordes: 86 novos postos avançados aprovados em um único ano, financiados diretamente pelo Estado ocupante. Quando os arquitetos da política sionista falam a linguagem da limpeza étnica, a violência praticada no terreno não é uma aberração. É a política funcionando conforme o planejado, e vem sendo elaborada há anos.

Essa máquina de desapropriação e agressão se estende ao próprio sistema prisional, que funciona não como um órgão de aplicação da lei, mas como uma arma destinada a decapitar a vida política palestina. Mais de 9.600 presos políticos palestinos estão detidos em prisões israelenses, quase metade sem acusação ou julgamento, mantidos em detenção por tempo indeterminado com base em autos secretos que nem eles nem seus advogados têm permissão para consultar. Não se trata de repressão acidental, mas de estratégia: Marwan Barghouti, Ahmad Sa’adat, Khalida Jarrar. Walid Daqqa, escritor e pensador revolucionário, faleceu em abril de 2024 após 38 anos atrás das grades, privado dos cuidados médicos que poderiam tê-lo salvado.

As crianças não são poupadas: Ahmad Manasra ficou em confinamento solitário por anos quando ainda era menor de idade. Ele foi apenas um entre centenas de crianças palestinas julgadas anualmente pelo único sistema de tribunais militares do mundo criado para julgar crianças. Trata-se de uma tecnologia colonial criada para destruir a memória coletiva, separar a liderança do movimento e tornar um povo inteiro governável por meio do cativeiro permanente.

Rejeitamos a ficção de um cessar-fogo que existe apenas no papel. Rejeitamos uma resposta humanitária que mantém uma população perpetuamente à beira da fome, em vez de acabar com ela. E rejeitamos a normalização do terror causado pelos colonos, praticado com o incentivo do próprio governo que deveria impedi-lo.

Exigimos:

  1. A genuína e verificada implementação do cessar-fogo em Gaza: um fim efetivo aos ataques contra civis, e não uma simples reformulação da mesma violência.
  2. Acesso humanitário imediato e irrestrito a Gaza: sustentável, financiado e seguro, para que a fome não seja usada como moeda de troca.
  3. O fim da impunidade dos colonos na Cisjordânia: pelo julgamento efetivo dos agressores, a proteção das casas e dos locais de culto palestinos e a responsabilização daqueles que incitam essa violência a partir de suas posições de poder.
  4. O povo palestino não pode ser livre enquanto seus líderes políticos permanecerem presos e impedidos de participar da vida política: pela liberdade de todos os presos políticos e garantia de seus direitos políticos.
  5. Pressão internacional e responsabilização: um cessar-fogo que não é cumprido não é um cessar-fogo, e um governo que arma e financia a destruição da vida palestina não pode ser autorizado a fazê-lo sem consequências.

O povo da Palestina merece mais do que promessas quebradas. Ele merece segurança, dignidade e justiça. Não ficaremos em silêncio enquanto isso lhes for negado.

A luta por uma Palestina livre continua.